segunda-feira, 19 de outubro de 2015

Breve história do mundo

Era uma vez Deus. Um dia, cansado de tanta pasmaceira Deus criou o universo, as coisas e as criaturas. Tudo exatamente do jeito que é hoje, com propriedade, com mercado, com Estado, com polícia, cadeia e pessoas dizendo que desde que o mundo é mundo as coisas são assim e nunca vão mudar.
Fim.

terça-feira, 13 de outubro de 2015

Sobre a série Narcos

Tem uma novela no Netflix chamada Pablo Escobar, o patrão do mal. A perspectiva é bem diferente, já que na versão do Padilha se fala do ponto de vista da DEA e na produção colombiana há uma ênfase na política local. A narrativa de Narcos, não linear e cheia de imagens de arquivo, além dos atores bonitões, é bem mais atraente. A colombiana é melodramática e cafona. Gosto porque sinto mais proximidade, me parece mais sulamericana.
Há incorreções históricas em ambas, mas o que de cara me chamou atenção é como as mulheres são retratas. Na novela colombiana, embora sejam minoria na trama, as mulheres são sujeito. A mulher que introduziu Pablo no tráfico de cocaína, Griselda Blanco nem é mencionada em Narcos; a mãe e a esposa do traficante são duas criaturas passivas que praticamente não têm voz e de modo geral as mulheres, como em Tropa de Elite, estão ali ou para: ser objeto sexual, gerar filhos, pra encher o saco, pra fazer besteira - que culmina em estupro e/ou morte.
Longe de mim querer protagonismo feminino no crime organizado. Mas é bem chato perceber que estamos em 2015 e as narrativas da cultura de massa insistam que tudo o que acontece no mundo é obra/consequência da ação de homens enquanto nós estamos lá apenas para servi-los.

sexta-feira, 21 de agosto de 2015

Deixem as minas malhar em paz

Eu vou à academia no horário de almoço, que é quando tem menos gente. Eu uso legging com uma camisetona larga pra chamar menos atenção possível. Mas hoje eu estava fazendo uma sequência de exercícios que exigia que eu ficasse de quatro no colchonete e eu não consegui terminar porque eu não tinha como me posicionar sem que desse ângulo pra três machos ficarem secando meu rabo. Desculpa se o meu linguajar ofende. Eu tô mais ofendida de não poder me exercitar em paz. Tem horas que é impossível não ser misândrica. 

Antes que alguém revire os olhos pensando: afe, acha que todo mundo tá olhando pra ela eu devo dizer que não é elogio nenhum ter seu corpo encarado por estranhos quando você está tentando se exercitar. Isso não faz com que eu me sinta bonita. Ao contrário, a gente se sente um lixo. Porque não precisa estar dentro dos padrões do que a sociedade considera bonita. Você é mulher e isso faz com que os homens se sintam no direito de te olhar como um pedaço de carne e não tenham a decência de disfarçar. Pelo contrário. É tão incômodo que você está de costas e sente que estão te comendo os olhos. Comendo, não. Violando.

A situação foi tão incômoda que eu acabei pedindo que a professora mudasse meu treino pra que eu não tivesse que ficar naquela posição de novo. Eu sei que eu estava num ambiente em que nada me aconteceria, eu sei que olhar não tira pedaço. Mas a raiva de saber que tem um estranho olhando pra você ostensivamente num ângulo e numa posição que em geral as pessoas só tem acesso em momentos de intimidade era tanta que eu não consegui terminar a série. As academias são cheias de anúncios para guardarem os pesos e utilizarem toalhas. Deveria ter cartazes para educar os homens também. É por causa disso que existem academias só para mulheres. Os homens tornam a vida tão insuportável que a gente tem que se cobrir e se auto-segregar.

Uma vez eu falei sobre assédio num post no Facebook e um amigo, que eu acredito que é uma pessoa bem intencionada, comentou: veja pelo lado bom, pelo menos você ainda chama atenção. Eu respondi muito educadamente sobre o quanto esse tipo de ideia é cagada. Eu tenho 35 anos, então ainda chamar atenção nessa idade, numa sociedade obcecada pela juventude, deveria ser uma vantagem. Continua-se acreditando que o único objetivo da vida das mulheres é atrair atenção dos homens. A última coisa que uma mulher quer é chamar atenção de estranhos. Ao contrário. A gente se cobre porque se culpa, porque sabemos que se formos vítimas de algum tipo de violência vão apontar o dedo pra gente e não pro agressor. Ser mulher é viver com medo.

Eu sou uma mulher vaidosa e em muitos momentos bem perua. Gosto de usar vestidos, decotes, mostrar as pernas, posto fotos em que me acho gata. Mas nas fotos que posto sou eu quem escolhe o que mostrar e de que ângulo eu quero que me vejam e quando eu me visto com roupas que mostram meu corpo estou fazendo isso pra mim, não pros outros. Não é possível que não dê pra entender a diferença. Mesmo assim eu tenho que pensar mil vezes antes de sair de casa porque se for pegar transporte público eu acabo pondo um short por baixo ou pondo uma calça).

Eu que tinha acordado de ótimo humor, saí da academia espumando de ódio. E triste, porque fui eu que tive que mudar, já que eu não poderia bater em cada um daqueles caras, como era minha vontade. Porque um dos motivos pelos quais eu malho é justamente ser forte. Porque se um cara tentar encostar a mão em mim sem o meu consentimento ele vai apanhar. Mas tem essas situações em que a pessoa não te toca, mas é abusiva mesmo assim. E quanto a isso a gente não sabe o que fazer, além de vir pra casa chorando e se rematricular no muay thai. 

segunda-feira, 27 de julho de 2015

Rock, machismo e vergonha alheia

Uns tempos atrás eu andava ouvindo Beyoncé no repeat quando meu marido me perguntou se eu tinha deixado de ser roqueira. Achei engraçado, mas depois comecei a pensar sobre isso. Durante muitos anos eu repeti que minha vida havia sido salva pelo rock'n'roll. Em certa medida, ela foi mesmo. Meu gosto musical definido muito cedo (em torno dos 10 anos), alinhado com a atitude rebelde e contestadora que aparentemente vinha no pacote, me ajudou a definir um bocado de coisa na vida. Do meu estilo de me vestir ao tabagismo adquirido para compor personagem - é ridículo, eu sei, mas em minha defesa devo dizer que era adolescente. Gostar de rock me fez me empenhar para aprender inglês, o que mais tarde serviu pra arrumar meu primeiro emprego, aos 14. Minha aproximação com o anarquismo, como pra tantas pessoas que conheço, se deu por meio do punk. O rock me deu toda uma sociabilidade, amigos, amores e momentos incríveis ao som de músicas idem.

Resumindo, posso dizer sem exagero que minha vida seria bem diferente se não fosse roqueira. Porém, de uns tempos pra cá comecei a me abrir para outros estilos musicais que antes eu não me interessava ou tinha preconceito, como o pop. Sempre gostei de uma diva, seja ela uma cantora de jazz ou uma performer como Madonna, Beyoncé e cia. Mulheres fortes sempre me fascinaram, mas antes eu tinha vergonha de dizer que gostava de algumas coisas. Hoje eu me dou conta que os motivos estavam diretamente relacionados à minha formação roqueira e que podem ser resumidas em dois pontos:

1- O rock é extremamente machista
2- O meio roqueiro é tão arrogante que chega a ser ridículo

Rock é um estilo musical cujo protagonismo é masculino. Claro, há movimentos como o Riot Grrrl onde predominam bandas formadas por minas e existem mulheres maravilhosas em bandas clássicas - como Joan Jett, Debbie Harry, Kim Gordon, Kim Deal, Patti Smith, Nico, mas os homens são dominantes.. Mas faça uma lista das suas dez bandas preferidas e veja quantas delas possuem pelo menos uma integrante ou são formadas por mulheres. E a resposta pra isso não é difícil de chutar: no imaginário coletivo rock é coisa de macho.

Por que não colocar uma mulher estuprada na capa de um disco?
Nem vou entrar na discussão sobre misoginia e objetificação das mulheres no rock porque isso aí rende mestrado e doutorado (e se for problematizar classe, raça e orientação sexual porque aí é que danou-se). Na cultura roqueira as mulheres aparecem predominantemente como objeto, não como sujeito. Tem Hendrix nesse clipe assustador dizendo pra uma mulher que tá cansado de perder o tempo dele e que ela será toda dele. Há toda uma lista de canções, videoclipes, capas de discos em que as mulheres são endeusadas, infantilizadas, violentadas ou são apenas objeto decorativo. Quando se fala em sexo, drogas e rock'n'roll esse sexo não é apenas hétero - o que em si já seria um problema - é um sexo onde a mulher predominantemente é passiva.

Quando era adolescente os Raimundos estouraram com disco cheio de músicas horrorosas e com um hit dizendo que queria ser o banquinho da bicicleta pra ficar perto da vagina. Os Garotos Podres tinham uma música sobre um cara que era procurado pelo estupro "de uma mina cabaço" e isso não era condenado moralmente, ao contrário, ele era o cara "mais punk que eu já conheci", dizia a letra. Hoje eu me dou conta do quanto tudo isso é ofensivo e problemático pra pessoas nessa idade, quando sua personalidade está em formação e você não tem muito filtro. Porque adolescentes querem aceitação e você não quer ser a chata que reclama da letra da música, que não tem senso de humor. Ironicamente a subcultura em que me refugiava para poder ser eu reproduzia os mesmos valores machistas e misóginos dos quais eu tentava fugir. Quem me conhece sabe o quanto eu sou perua e aprecio uma montação. Mas durante muito tempo eu evitei o divonismo porque tinha medo que me achassem fútil. Um dia, quando eu já havia superado essa bobagem, um rapazinho com quem eu estava flertando numa festa chegou em mim e disse que eu era "bonita demais" pra gostar daquele tipo de música. Ele achou que tava me elogiando. Eu respondi que ele era bonitinho, mas ordinário e fui pegar outro. Não sou obrigada.


As mulheres na sociedade em geral já não são levadas a sério e no rock não é diferente. O tempo todo você pode ser intimada por alguém que nem te conhece para provar que você conhece a música, que merece frequentar determinado espaço ou usar a camiseta da banda X. Sim, você pensa, era só o que faltava, ter que fazer vestibular pra ouvir música (o que nos leva diretamente ao ponto 2 deste texto). Era o que eu fazia. Talvez seja o que várias meninas jovens estejam fazendo agora: estudando bandas e discografias pra provar que são boas roqueiras. Embora rapazes também façam isso (tenho um ex que chega ao cúmulo de saber aniversário e signo dos integrantes de sua banda preferida), dificilmente um cara irá desafiar outro homem no rolê a dizer se ele pelo menos conhece algum disco da banda cuja camiseta está usando, como ilustra esta matéria imbecil.


Diante de tudo isso não é difícil entender porque quando mais feminista eu fui ficando, mais me distanciei do rock. Em outras palavras: foi me dando bode. Toda vez que eu me lembro que ao arrotar meu conhecimento musical pra conseguir aprovação de homem ouvi: "nossa, você manja mesmo" e fiquei feliz com isso sinto uma vergonha terrível. Hoje eu tenho uma bolsa com estampa dos Ramones (uma das minhas bandas preferidas) e se alguém vier me inquirir sobre meu conhecimento sobre eles eu vou mandar à merda e dizer algo como "não tenho que te provar nada, otário". Sim, porque se tem outra coisa que me deu e me dá um bode gigantesco é que roqueiros se supõe superiores ao resto da humanidade simplesmente por gostar de rock quando são tão tapados, preconceituosos e superficiais quanto todo o resto.
Cê jura, fio?

Existe um combo roqueiro padrão, que é o fã de rock-cinema-séries. A pessoa raramente lê um livro/jornal/site de notícias, viu Laranja Mecânica e meia dúzia de filme cult e se acha o suprassumo da intelectualidade porque não assiste BBB ou não ouve funk. Não aguento. Tudo bem, é ok ser desse jeito quando você é adolescente porque  nessa fase se espera que sejamos ridículos, mas permanecer assim depois de uma certa idade não é legal, migs. Porque não ver tevê aberta não te faz intelectual, assim como ouvir funk não faz de ninguém um alienado. Semanas atrás foi Dia do Rock e ainda tem homem de 40 anos dizendo "isso é rock de verdade, não essas porcarias que vocês ouvem". Ou "camiseta dessa banda virou modinha". Ou conhecendo mais sobre a música e cultura estudunidense/britânica (porque são as pátrias do rock) e nada de América Latina. Não, você não é obrigado a gostar de cultura brasileira ou latina se não se identifica com ela, mas seje menas, né, colega? Isso não faz de você uma pessoa mega culta de gosto ultra refinado e todo mundo que não compartilha deles um idiota.

Para que tá feio, migo.
Outro dia vivi uma situação que ilustra tudo o que expus até agora. Eu estava numa festa na casa de uma amiga e alguns dos convidados (homens) começaram a colocar música no Youtube na TV da sala (Bowie, Joy Division, The Cure, Smiths, artistas que eu particularmente gosto bastante). Eu estava mais interessada em conversar e nem me liguei no som, até que uma hora uma amiga começou a cantar esta música e tivemos a ideia de colocar o clipe pra dançar. Os caras estavam há horas comandando o som, mas como já estava meio vazio a gente achou que não teria problema dançarmos um pouquinho. Mas é claro que teve. Vejam a ironia: três mulheres que esperaram horas pra poder colocar uma música (cuja letra é precursora de toda uma onda feminista que se manifesta hoje na música pop) serem censuradas porque um cara (que tava ouvindo Joy Division uma hora antes) que se deu o direito de dizer que mulher controlando o som não escolhe música que preste. Claro que deu barraco, porque se tem uma coisa que eu não faço mais a essa altura da minha vida é engolir desaforo de macho. E claro que ficou feio pra mim, pra mulher barraqueira que poderia ter ignorado e não para o machistinha que poderia ter optado por calar a boca.

Na roqueiragem com meus amigos 
Respondendo à pergunta que meu marido me fez naquele dia, não, não deixei de gostar de rock (a título de curiosidade eu não sei qual o meu disco preferido dos Ramones porque não consigo decidir entre o primeiro, o Rocket to Russia, Road to Ruin, Mondo Bizarro e End of The Century porque eu amo muito essa banda). Mas penso é necessário pensar criticamente o mundo que a gente vive, a começar pelas coisas que a gente gosta. Senão fica fácil demais, não é, mes amis?

sexta-feira, 9 de maio de 2014

Especial Dia das Mães: Direito ao Aborto


Dia das Mães está chegando e em breve teremos uma enxurrada de textos sacralizando a maternidade e dizendo que esta é a maior alegria que uma mulher pode ter na vida, que você só se realiza como mulher quando se torna mãe e mais um monte de bobagem que reduz a existência das mulheres a algo semelhante a uma incubadora. 

Em primeiro lugar, acho que ter um filho deve ser uma alegria imensa, independente se você o gerou ou não. Gosto muito de criança, acho lindos, foftinhos e me divirto muito brincando com elas. Talvez eu tenha um ano que vem. Talvez eu não tenha nunca e isso não é da conta de ninguém. O que realmente me incomoda é esse bullying da maternidade compulsória, a ideia de que uma mulher só se realiza sendo mãe. Essa pressão social possui um lado extremamente perverso, que é a criminalização da mulher opta interromper uma gestação indesejada. Por isso eu decidi escrever este texto, pra lembrar que a maternidade deve ser um direito, nunca uma imposição da sociedade.

Eddie Vedder, seu lindo!
Sou feminista, logo sou uma militante pro-choice. Isso quer dizer que eu sou a favor da legalização do aborto (feminista pro-life é tipo anarcocapitalista: uma contradição em termos). Legalizar o aborto não quer dizer que as pessoas será obrigadas a abortar, isso quer dizer que a mulher que optar por interromper a gestação poderão fazer isso com assistência médica adequada. Mas antes que você comece a me xingar dizendo que eu não tenho respeito pela vida humana e dizer que as mulheres que abortam são umas egoístas, uma advertências: não adianta falar no caráter sagrado da vida e dizer que se a pessoa não queria ter engravidado ela simplesmente não deveria ter feito sexo/usado camisinha. Primeiro porque religião é uma convicção pessoal e ninguém tem certeza que existe alguma coisa além disso aqui, segundo porque métodos contraceptivos falham. Esse não é um debate sobre religião, nem sobre moralismo. Este é um debate sobre saúde pública, portanto sobre política.

Aliás, eu não boto fé em quem fala que a vida é sagrada e tá de boa com matar animais pra comer,
explorar os recursos naturais do mundo à exaustão pra manter seus hábitos de consumo, passa reto por moradores de rua e acha que bandido bom é bandido morto. Se for pra fazer discurso moralista sobre o quanto a vida é sagrada vamos mostrar o mínimo de coerência, como frisou o George Carlin nesse vídeo.

Em geral as pessoas que são contra a legalização do aborto o fazem defendendo o direito da "criança". Criança, meus amigos, é quando o feto já tem condições de sobreviver fora do útero. Antes disso, no estágio embrionário, o que temos são células que poderão ou não formar uma criança (e taí o número de abortos espontâneos no primeiro trimestre altíssimo para comprovar que nem todo óvulo fecundado é viável). A maioria dos abortos é realizado antes da formação do feto e do sistema nervoso central. Essas coisas que circulam pela Internet com fetos pensantes sendo abortados depois de completamente formados é uma mentira propagada por grupos pro-life.

"Ain, mas é fácil ser a favor do aborto se você já nasceu". Bom, se eu não tivesse nascido eu não seria contra nem a favor de nada, porque eu simplesmente não existiria e eu não sei você, mas eu não me lembro de muita coisa de quando eu estava na barriga da minha mãe, porque, bem, eu ainda não era uma pessoa. E não é fácil ser a favor da legalização do aborto, porque é exaustivo repetir de novo e de novo e de novo e ter argumentos racionais que são rebatidos com ignorância sobre processos biológicos, moralismo, fundamentalismo religioso e outras falácias.
Esses dias eu ouvi dizerem que se a mulher não quer ficar grávida "que não trepe". Bem, esse tipo de argumento é tão medieval que dá medo de pegar peste negra, mas eu fico pensando na cara de pau que algumas pessoas têm de achar que todo mundo deveria agir de acordo com que elas acham certo. Eu por exemplo acho que as pessoas deveriam pensar antes de falar besteira, mas nem por isso eu defendo que o Estado amordace quem não sabe a diferença entre argumentar e relinchar.

Em geral as pessoas que são contra a legalização do aborto aceitam que ele seja realizado em caso de estupro. Isso só mostra que na verdade as pessoas não estão preocupadas com a "vida" e em decidir sobre o corpo das mulheres e sobre sua sexualidade. Foi estuprada? Beleza, a gente deixa. Gozou, então tem que levar adiante uma gestação indesejada que é pra aprender a "ser responsável". Isso só mostra o quanto a nossa sociedade não vê as mulheres como seres autônomos e sim como seres nos quais os corpos são um imenso penico para a cagação de regra coletiva. (Mas há pessoas que são contra o direito ao aborto em qualquer circunstância e há um projeto de lei rolando que quer impor uma violação coletiva às mulheres do Brasil. Leia mais aqui e aqui).

Acordem, o direito ao aborto existe para quem pode pagar por um procedimento feito por um médico, numa clínica, com todas as condições de segurança e limpeza. As mulheres sempre praticaram abortos e continuarão praticando, a diferença é que as mulheres pobres vão fazer isso de forma precária. A cada dois dias morre no Brasil uma mulher em decorrência de abortos realizados em más condições. Ser contra legalizar o aborto não é ser pró-vida, é ser contra essas mulheres. Defender a legalização do aborto é uma questão de humanidade, como mostra a experiência no Uruguai. É também uma questão de respeito pelas mulheres, que devem ser as únicas responsáveis por decidir quando e se tornarão mães.

Dito isto, feliz dia para aquelas que ESCOLHERAM ser mães <3



quinta-feira, 24 de abril de 2014

Enquanto isso, na sala da justiça...

Textinho dessa que vos escreve que saiu esta semana no site da Carta Capital http://www.cartacapital.com.br/sociedade/por-um-feminismo-piadista-4206.html

sábado, 18 de janeiro de 2014

Tamanho G. De gostosa.


No fim do ano passado eu comprei meu primeiro vestido tamanho G. É um vestido vermelho bem mulher fatal, tipo de roupa que vai ficar bonito justamente se a pessoa que o usar tiver curvas. Mas por algum motivo, quem o fabricou decidiu que há um tamanho máximo de corpo pra ter direito a se vestir de mulherão.

Ontem eu vi na home do UOL uma galeria em que se podia votar nos melhores corpos do verão. Todas as mulheres da galeria eram magra ou muito malhadas estilo Panicat, não raro lipadas e/ou siliconadas. Só tinha duas negras, que não eram brasileiras. Na vida real quantas mulheres você conhece que se parecem com essas musas da mídia? Eu conheço pouquíssimas, mas conheço muitas mulheres que são bonitas  e atraentes, em todas as cores e formas e que no entanto não param de se torturar pra se adequar a esses padrões.

Como é que a gente muda isso? Se aceitando. Como essas garotas aqui.

 "Ah, você está falando isso porque você é bonita". Sim, eu gosto muito da minha aparência e estou bem satisfeita com ela. Mas eu acho que fiquei muito mais bonita - e feliz - depois que eu parei de achar que tinha que vestir 38, esticar meu cabelo com produtos tóxicos e melecar minha cara com produto caro do que quando eu tinha 20 anos e tinha corpo de Trip Girl. Eu aprendi a me amar. Não foi a idade, não foi a análise. Foi o FEMINISMO que me deu isso.

Talvez eu tivesse uma crise aos 18 anos se eu soubesse que depois dos 30 eu estaria vestindo G. Mas eu descobri com o feminismo que não é o meu corpo que está errado. É a indústria da moda, é a falta de diversidade de corpos femininos na mídia em geral. Meu G é de gostosa. E eu estou muito feliz com ele, obrigada.